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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Preciosismo





Não me pergunte a exatidão das horas,

Se tenho a alma dispersada em pólen,

Onde os segundos ávidos se engolem

Vorazes, diluídos em distintas floras.



Não de mim, o que ocorre do lado de fora,

Se tenho o espírito libertado no éden,

Onde o tempo misterioso é mera retórica,

Ainda que dentro, ponteiros invisíveis me ferem...



Não sei das horas, nem o que faço todo o tempo,

Se perdido vivo no ilusório advento

De existir, não existir, de contemplar o vento.



Não sei se ainda sou, se morto ainda contemplo

O mundo, que gira com meu sôfrego sopro... Lento.

Corpo ou alma, que importa? Se eu ainda me invento?


Valéria Áureo
12/03/2009

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Guerra dos Meninos

                                            Ilustração: Fonte  Internet
Lá do alto
No farol da Ilha de Quimera,
O menino avista o alvo...
Mira, sustenta e espera, a salvo...
Ele aponta o dedo para a esfera;
Vai começar a batalha
Na longínqua Riviera de Gargalha.
Outro menino fardado
Olha através da luneta, além da muralha,
E avança no campo minado
Empunhando a arma de metal.
O menino americano sobe a torre, toca o sino, e espera.
Carrega o fuzil e a escopeta
E, entoando o canto da vitória,
Ergue a mítica bandeira.
Os dois meninos inovam a geometria:
Novos rumos no horizonte;
Novos riscos no mapa.
Novos golpes de espada,
Novas fronteiras, além da Ribeira,
Vistas à distância na hilária bravata.
Uma bomba, uma explosão,
Um estrondoso vaticínio:
Um míssil no ar lançado...
Um artefato de alumínio:
Explode no campo inimigo
A lata de Coca-Cola.
O outro, obstinado, olha para o mar
De bolhas e espuma,
E devassa o disputado domínio
E avista o submarino invadindo
A escuna;
Avista outro jato de espuma emergindo
Avista a bomba de gás subindo.
E a ameaça de longe, nos jorros
Marrons refrigerantes,
Que a branca cobertura da bebida esconde,
Toma vulto sob a neblina.
Os dois meninos gritam e riem
Vestidos de fardas de jornal,
Enquanto rasgam as quilhas.
Brincam de guerra, inocentes,
E fazem do mundo um front,
Uma guerra de dois soldados
Um campo de dois combatentes,
O globo, um brinquedo redondo.
Uma bola de gude azul, um segredo
No game intergaláctico. A esfera!
Com dedos destros no comando,
Um atira, o outro espera...
Arremetem pipocas aos céus.
Dois valentes na Ilha de Quimera
Lutam sem medo a fantástica batalha,
Nas ilusórias fronteiras de Gargalha.

Autora: Valéria Áureo
In: Córrego do Tempo

sábado, 22 de setembro de 2018

No Meio do Caminho da Marquês de Abrantes


“No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho”.
No meio do caminho tinha uma perda. Tinha uma perda, no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra, um revólver, uma bala, uma perda, enquanto andava pela rua o homem despojado de malícias.
“Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas”.
Um corpo octogenário estirado, uma rosa rubra de sangue estampada na camisa. A massagem cardíaca, o sangue se esvaindo e contornando os desenhos da calçada.
Nunca me esquecerei da fuga do sopro divino!
Havia uma bala travada no peito de quem inocentemente completava a rotina da tarde, carregando sua sacola de compras de ingenuidades.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho da Marquês de Abrantes tinha uma pedra, tinha uma bala...
No meio do caminho tinha uma pedra, uma bala, uma perda... Morte na Marquês de Abrantes.
Nunca me esquecerei desse trágico poema na minha rua.
Valha- me Deus! Por isso eu quero a espada de Cervantes!


Autora: Valéria Áureo

To: Nelson Musachio, de 79 anos, morreu após ser baleado na calçada da Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, na Zona Sul do Rio.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Lua II


Exercita-se a Lua em tênue fio,
Malabarista noturna dos astros.
Na ponta dos pés, despida no rio,
Equilibrando-se no extremo dos mastros.
Sapatilhas azuis, encobertas na noite
Acrobata em salto mortal. Nas nuvens.
Contorcionista de mil braços, raios na cidade...
Eternidade interrompida pelo sol.
A prata de um açoite
Vara a escuridão dos bares
Tão logo fulgura a claridade.

Traça ela na vastidão do infinito
Na crescente circunferência,
Mil paralelas sem fim;
Coroa de sua lavra, a imagem prateada
Vem se refletir na água.
Seu contorno na alcova, no verso,
Acoberta a mulher amada
Empalidecendo-se no dia nascente.
Lua!... Ver-se assim refletida e desnuda
Em fases de tantas elas, bailando...
Lua, Lua, Lua... Cheia, nova, minguante:
Cíntia, Selene, Ártemis, Diana...
Em todas elas se esconde.
Dança, se triste, ou crescente,
Expõe-se iluminada e candente
Iluminando o amor disperso,
Em alvíssima porcelana...
Na órbita dos astros sequentes,
Na escuridão do universo.

Autora: Valéria Áureo
In: As Folhas Devem Cair

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A mão da Condessa e a carta de adeus




A Condessa era dada a cartas, piano, leituras, passeios pelos jardins, chás e conversas triviais.
Dias e noites em cantos suaves e madrigais.
Todo o seu tempo ia nisso, no que ela se sentia muito bem, entre os corriqueiros e banais fatos palacianos;
Do amor era refém
Em dias, meses, dez anos.
Ambos se amando e tão joviais eram eternos...
A mão da Condessa, leve como uma pluma se assemelhava à volátil espuma,
Deslizando suavemente sobre o papel de seda - a lua, onde deixava pequenos recados para o conde:
dois corações de filigranas - saudades, meu amor!
Aonde é que se esconde?
A mão do Conde, pesada como um puma, arranha a folha delicada e arrisca um rabisco.
Comete deslizes ortográficos, despetalando a última flor no palácio, com desembaraço.
Nas mãos o sabre e no corpo a armadura
Delineiam o último traço.
O fatal risco!
Escreve aflito! Estou cansado de juras, juras! Que inferno!
A Condessa os erros dele arruma com candura...
E os encaixa nos falares galantes e gentis do palácio
Com brandura:
- Para mim o amor é eterno!
Até que um dia ele grita e bate a porta

Num arroubo de loucura:
- Chega! Nada mais me importa!
Sua cultura, senhora Condessa, me atormenta e me sufoca!

Deixe-me sozinho, criatura!


Autora: Valeria Áureo
To: Conde du Marrot.
In: Docilidade dos Sobreviventes


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Lua I


A Lua, quando está triste,
Esconde-se em mim.
Eu fico na janela,
Eclipse dela,
Reflexo marfim.
Eu, quando estou triste,
Escondo-me nela,
Que fica iluminada
Em quarto crescente,
Minha dor minguante,
Cheia de esperança,
De uma lua nova.

Autora Valéria Áureo


In: Sentimento Disponível

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Canto para Minas




Minas minhas manhãs
Mornas, verdes, perfumadas...
Pela casca de laranja e canaviais.
Bálsamos das neblinas, esmeraldas,
Nas nuvens esparramadas, turmalinas
Nos densos milharais.
Minas meus minérios...
Névoas de Barbacena, lamparinas.
Ladeiras do sobe e desce,
Aromas, cores e roseirais
E seus impérios e campos.
Frágeis folhas, capim e touceira,
Pão de queijo, doce, café
Que a mulher mineira tece
À mesa as crianças, açucenas
À noite as rezas e os adereços
Homens e mulheres nos terços.
Palhas de milho espalhadas...
Fumaça de chaminé. Córregos,
Cavalgadas,
Currais, bois... Estradas...
Novenas,
Capelinhas, mourões e toras.
Frutas macias, cantos, moendas.
São Minas de Cataguazes, mangadas,
Barrancos nos rios e lavadeiras...
Alambiques, tonéis e talhas
Piabas, traíras e folhas de bananeiras.
Tocantins, Silveirânia, Ubá,
Minas de Piraúba, samambaias...
Doceiras.
Troncos de jequitibá. Laranjeiras...
Pomba, Mercês, Taboleiro!
Cidades pequenas, tropeiros,
Selas e cangalhas, milho e fubá...
Arreios, suores e afã.
Estradas de terra, bem-te-vi, sabiá,
Pardais, canários e ribeiras...
Montanhas cheirosas, pés de romã.
Grotas das maritacas; capim!
Chaleiras, currais e estacas
Fornos, carvão e cordilheiras,
Sobe e desce das ribanceiras
Essa vida não tem fim!
Lambaris, córregos... Cavaleiros
Nos lombos dos animais;
Parada, descanso, fogueiras...

Anzois, linha, iscas nos embornais...
Tropas às margens dos rios,
Das águas de minhas Gerais


Autora: Valéria Áureo -
in: Sentimento Disponível

segunda-feira, 12 de junho de 2017

WORDART


Nickname: Lobo do Mar, ou Selvagem;
Tigrão, Cinquentão, Meia-idade.
Tu sonhas como seria
Ter um affaire com Maria.
Encaminhas cópia oculta
E enalteces teu pen drive:
Um Bill Gates, uma Microsoft!

Vendes mil beijos na boca
Que se fazem inocentes,
Ícones, propostas loucas,
Envidraçadas nos dentes,
Expostas no monitor.
E te ofereces, webmaster,
Fazendo upload com outras.

Na tela... No espaço... Dás enter!
Beijos entalhados no ventre
De invisível sedutor,
Embutidos nos Emails
Nos recados, nos correios
De uma loura Leonor...

Isauras, Teresas, Estelas,
Marias, Angélicas tão belas...
Tão longe, tão perto e conciso,
Resumes teu aplicativo:
Um potente hardware.

Wordart tu pões em destaque.
Copias e colas... Navegas;
E vens afoito ao ataque!
Diante do laptop, ativo...
Galante! Stop! Um hacker...
Galante e conquistador…

Emotions, documents, pecados...
Precisas deixá-los gravados
No webcam. Meia-noite... De anseios...
No corpo, no home Page, nos seios,
Na página da negra Neide.

Delete! Mais uma ao mar!
Antes que a ingênua, incauta,
Descubra da ruiva Cleide, o avatar.
Que enciumada e triste, deixa estar...
Neide desnuda queira se matar.
Azar... Tu pensas: sobra-me a Guiomar!

Que fuja, ou te trate mal, internauta...
Ou troque o segredo, a senha,
A que melhor te convenha...
Mas não faz mal:
Neste mundo virtual
Até mesmo a Maria da Penha
Pode te consolar.

Já com a saudosa Grace,
Nem ao menos um Backspace...
No Excel dois mil e sete,
Calculas o potencial de Ivete.
No alinhamento de dados:
Uma para domingo,
Outra para sábado.

Queres levá-las com o tempo em resenha,
Arrastá-las pela Web, em aventuras.
Digitas, editas, salvas, envias e programas...
Acesso rápido. Área de transferência:
Pensas: quiçá hoje eu levo uma pra cama...
Não está Alice, mas está a Penha.
Não sendo a Rosa, talvez a Ana.

Conectado a roteador. Lento…
On line... Com sólido argumento,
Tens só um pensamento:
Realizo teus sonhos! Faço loucuras!...
Ah! Férteis mensagens, promessas,
No Skype, nas longas conversas.
Coloridas de confetes. Advertes:
Tenho mil beijos pra Beth,
Disponíveis, top secrets… Chicletes.
Para o corpo acomodar Elizetes
Nos blogs, no Facebook de Anetes.

E, tua boca cedente, ao vivo,
Em closes, by Messenger, prometes:
Segredas só para uma,
Como se só uma houvesse...

Uma paixão descabida. Um arquivo,
Um livro aberto, disseste.
Download... Sem você eu não vivo!
Mentes... À outra, à última conheces...
Insensível, à primeira argumentas:
Vê se me esquece!

Configuras, atualizas teu banco de dados,
Software, com muitas mulheres,
Mesclando funções e cores
Formatas opções de amores,
Diverte-te. Da forma que queres,
No link de tantos desejos: Lolitas,
Balzacas, mulheres insones, aflitas,
Que loucas imploram na noite:
Jamais me abandones!

Acabas falando sozinho.
“Te irritas”: Cadê a Benedita?
Por que não está a Anita?
Off line, desconectado...
Deixa ao menos um recado!
Mulheres malditas!

Acabas clicando no nada.
Na noite e de madrugada,
Na rede dos continentes...
Vagueias, persistes, insistes:
Isauras, Teresas, Estelas,
Rosas, Giseles, Helenas?
Tão belas...
Toda mulher vale a pena!
Sem saberes, ao menos onde...
E quantas, e quem são elas...

Vírus, falácias espalhas...
Mentiras, spams e banners,
Dia e noite, todo o ano;
Ah! Les femmes...
Com propósito de engano.
Tramas na Rede as malhas:
Não esqueças que eu te amo!

Eu seria Maysa, Piaf, Dolores,
Uma mulher de muitas dores,
Se em ti acreditasse.
Basta! Some, vê se te afastas!
Apaga meu endereço!
Eu, por mim, já te esqueço!
Eu te alerto: nem és meu dono!...
Eu te pergunto: Salvar Como?


Autora: Valéria Áureo

Antologia do I Concurso de Poesias
Prêmio Amigos do Livro /Filipoços – 2010
Pag.70

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Leilão ( Poesia do Descontentamento)




Quanto é que me dão
Por um Estado falido:
Um pacote, dois malotes,
Três envelopes...
Faltando trinta e cinco mirreis
No lote?
Quanto é que me dão, meus senhores,
Por uma maleta vazia,
Que já foi proxeneta valiosa
E já pagou tanta orgia?

Quanto, enfim, valem os tonéis,
Os segredos, encontros e os papéis...
Dos ditos e poderosos coronéis?
Quanto é que me dão? Senhores:
Os vinhos, talheres e as joias da coroa,
A baixela e a faixa da presidência,
E das ruas os violentos clamores?
Quanto vale esta maleta:
Já comprou governador, juiz e a tia,
A irmã, a esposa e a amante,
Em negociata cara e desonrosa
E acelerada decadência?
Quanto me dão, meus senhores,
Nesse montante
De horrores?
Para pagar a falência,
Os truques dos poderosos?
Quanto é que me dão pela sacola,
Que foi vazia e voltou cheia de joia,
Que adornou ministro e atriz,
A título de esmola?
Quanto é que me dão por um político
Inclemente,
Um deputado, um senador, ou presidente,
Advogado, ou um empreiteiro feliz?
Um povo passando fome
Insultando e brigando ente si,
Enquanto os corruptos indecentes
Enchem as burras e as valises
E se divertem com suas meretrizes,

Ocultos em seus codinomes?...
Quanto é que me dão pela lista...
Daqueles que ocultam seus nomes
E se dizem inocentes
Gozam e morrem de rir?
Quanto me dão pela Esplanada,
Câmara, Congresso pagos em milhões,
Bilhões, trilhões e “estalecas”,
Onde ninguém não viu nada?
Ninguém nunca soube e nunca viu?
Nada no Palácio Alvorada!
Quanto é que me dão pelo Brasil?
Quanto vale esta merreca?


Autora: Valéria Áureo
26/05/2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Trem





O trem treme no trilho

E traz trezentos trabalhadores.

O trem vem de Petrópolis.

Trinta e três desembarcam atrasados,

Duzentos e sessenta e sete

Seguem viagem...Outros na estação.

Treze sentam atrás.

Os outros sentam à frente.

O cobrador atrapalhado

Troca três por dois trocados.

No trânsito congestionado,

Todos pedem passagem.

Só o trem não fica travado.

Na trama do trilho o trem vai...

No atrito do tráfego entroncado,

Só o trem não se atrapalha:

O trem nunca erra o trajeto,

Nunca deixa a estrada de ferro

Segue a viagem... Abafa o berro.

Traz atriz, traz trapezista,

Traz trombone, traz artista
Traz espartilho e saia.

Traz tranca para porta de trinco,

Traz trova, traz travesseiro e prato.

Traz o trágico professor de teatro.

Traz trecos, traz trupe, atores...

Traz índio da tribo tabajara...

Traz trapos e cobertores.

Traz estrondo dos tambores

E tropas de cavalos e burros.

O trem todo dia trabalha,

Já carregou mais de um trilhão

De tralhas e gente em frangalhos.

Traz cacarecos. Traz trigo, traz milho,

Apetrechos, trevos, bonecos e grilos,

Jogadores, tabuleiros e baralhos.

O trem nunca pega a contramão.

No fim da viagem, troca de carro e carvão.

O foguista enfim descansa

E apaga a grande fornalha.

O motorneiro trava a cancela,

Apaga o cigarro de palha.

O trem para na estação,

Faz barulho de trovão

Chia, treme e solta fumaça:

Piu ... Piu ...

E esvazia o vagão, 

O carregador descarrega a bagagem,
O passageiro entrega a passagem,

E o palhaço faz graça e trapaça
E afaga a pança em ridícula massagem.

Francisco toca o trombone na praça

E todo mundo alegre se abraça.




Autora: Valéria Áureo

Poesias Infantis In: Carrossel de Vento