Total de visualizações de página

quarta-feira, 29 de julho de 2026

 Ligações Reconfortantes V - ou as Virtudes do Eduardo

- Oi, aqui é Eduardo, o seu atendente virtual! Você sabia que a sua casa já tem banda larga ilimitada, para acessar de qualquer ponto? Eu posso...
Eu interrompo o Eduardo e deixo o telefone fora do gancho, como se continuasse ouvindo. Eduardo, do outro lado da linha continua falando, falando...
Minha cabeça acelera e faz considerações sobre o interlocutor. Um atendente virtual? Banda larga ilimitada em casa? Minha cabeça tresloucada entende que talvez Eduardo seja virtuoso. Sim, de virtual, para virtuoso, é um passo. Teria eu entendido errado? Ando confusa... Um atendente virtuoso! Virtudes cardeais, teologais, humanas? Ou seria um virtuose? Um desses que toca violino, um astro fenomenal na banda de rock? Quem sabe um pianista, um saxofonista, que faz soar ao longe as notas da felicidade de um blue. Penso em música. Penso no azul de Majorrele, minha cor preferida, no sereno som combinado com neblina. Flerto com a ilusão de uma ligação amorosa de seriado. Penso em virtudes. Seria muita sorte minha um atendente virtuoso, ao menos, e dono de atributos que já não constam mais nos hábitos e condutas.
Voltei o meu pensamento para as quatro virtudes cardeais, como as estações do ano, os quatro elementos, as quatro fases da vida, os quatro pontos cardeais, os quatro cavaleiros do apocalipse... Eu e minha mania de associação de ideias... Já é outono, mas imagino viver uma tarde de verão em que cobro virtudes de um atendente virtual. Quem sabe ele seja dono de prudência, a primeira da lista. Como é difícil Eduardo ser prudente. Se o fosse não ligaria para mim, pois sou muito crítica e inoportuna. Sou impaciente! Posso perder o controle até mesmo ao telefone. Não, Eduardo não é prudente. Prudência é sabedoria, previdência, precaução. A prudência coloca a nossa atenção na preparação dos fatos e eventos e nunca na precipitação nem no amadorismo ou improvisação. Eduardo, o atendente virtual, ao menos não improvisava, porque o texto era gravado. Não se colocava ao pé do precipício. Contudo aposto que ensaiou uma dezena de vezes, antes de gravar a mensagem. Precavido era. Sim, precavido, com certeza!
Quem sabe, o Eduardo da Vírtua tenha temperança. A segunda virtude trata do autocontrole, autodomínio, renúncia, moderação. A temperança ordena afetos, domestica os instintos, sublima as paixões, organiza a sexualidade, modera os impulsos e apetites. Abre o caminho para a continência, a castidade, a sobriedade, o desapego. Bom, eu concluo a favor do atendente: temperança ele deve ter, pois autodomínio e moderação são para poucos e ele demonstra na voz certa cautela e tranquilidade. Respira com calma... A temperança não permite que sejamos escravos, mas livres e libertadores e nos encaminha para o cumprimento dos deveres e para a maturidade humana. Sem renúncia não há maturidade. Grandes frutos da renúncia são a alegria e a paz. Não sei por que, mas me veio à cabeça a ideia dos temperos e sabores e contrastes: doces, salgados, amargos, ácidos... Não seria a temperança a arte de saber misturar tudo isso, na dosagem certa e preparar uma ceia deliciosa? Sabedoria para tirar o amargor da vida e colocar a doçura na medida certa para não enjoar. Parece-me que a temperança é a medida certa para todos os prazeres. Voltemos ao Eduardo! Teria tantas virtudes?
Fortaleza. Sim, eis a terceira virtude. Eduardo, o atendente virtual seria uma fortaleza? Faz-nos fortes no bem, na fé, no amor. Leva-nos a perseverar nas coisas difíceis e árduas, a resistir à mediocridade, a evitar rotina e omissões. Pela fortaleza vencemos a apatia, a acomodação e abraçamos os desafios e a profecia. É virtude dos profetas, dos heróis, dos mártires e dos pobres. Mais uma vez a minha cabeça foge... Eduardo! Mantenho a voz do Eduardo e virtudes ao meu alcance. Não tenho coragem para os grandes desafios e me confesso afeita às acomodações. Se eu pudesse escolher teria sido um gato (quieto sossegado no meu canto, sem qualquer tipo de amolações, a começar por telefonemas...). Acredito que o Eduardo da Vírtua também esteja acomodado no seu canto, repetindo, repetindo, repetindo... Coitado do Eduardo! Seu mal será a intemperança? Pode ser ...
E lá vou eu à última virtude cardinal: Justiça. Ela regula nossa convivência, possibilita o bem comum, defende a dignidade humana, respeita os direitos humanos. É da justiça que brota a paz. Sem a justiça nem o amor é possível. Agora eu passo a me lembrar de todos os amores de novela impossíveis e concluo que fui muito injustiçada na imaginação. Não tive paz nos meus afetos de novelas turcas- mania de Sherazade. Seria eu justa com o Eduardo? Há uma lista de possibilidades, com as quais sonhei e, no entanto... Bom, a culpa foi minha, pois eu não tive a tal coragem, advinda da força. Já notei que as virtudes andam encadeadas; se falta uma delas, nós já flertamos com as desventuras. Talvez me tenham faltado os temperos; aqueles que a baiana tem... É... Não sei quais são. Mas, sejamos justos: quem respeita os direitos humanos, afinal? E a justiça, como anda? Talvez devesse perguntar ao Eduardo, que continua a falar ao telefone, enquanto eu analiso todas as possibilidades.
Retomo o telefone e coloco o aparelho ao ouvido. Meu atendente virtual diz: para consertos, digite o número quatro! Mas, não me provoque, Eduardo! Não há conserto! Talvez não haja estragos.
Bom, Eduardo não teria ido tão longe, pensando em Platão ou São Tomás de Aquino ao fazer sua gravação para a Vírtua. E ele, Eduardo, ainda me diz que minha casa tem banda larga ilimitada. Que nada! Nem banda, nem bateria, nem cozinha, nem sax. Nem conserto e muito menos concerto! Aqui há muito não se ouve um blue ou um jazz. Aqui não há concerto, pode ter certeza! Bem, não sei muita coisa de meu atendente virtual, mas afirmo que ele é fiel, lá isso é, pois me liga todos os dias impreterivelmente às dez da manhã, às quinze da tarde e às dezenove horas. Já é um conforto ter três ligações ao dia. Persistente o Eduardo da Vírtua é! Ah! Se é!
Autora: Valéria Áureo
(In: Docilidade de Sobreviventes

domingo, 5 de julho de 2026

Sou uma daquelas que ainda escreve cartas...
Frases e frases inteiras - Ah! Tanta besteira!
Nelas,
parecem lã em tricô, arame em flanelas...
Enrodilham o pescoço àquela maneira
De guilhotina, cravos e fivelas.
Enforcam
Peixes e guelras em fieiras e gamelas.
Frases e frases nas cartas - Um nó de gravata e aspas.
Selos. Nós no pescoço, nas juntas, nas portas e janelas.
Frases inteiras nelas
Ah! Quanta bobagem!
Amarram-me os sapatos e controlam o meu Horizonte.
Frases inteiras nelas
Pulem as asas dos aviões e as pernas dormentes em esteiras e viagens
Aquém das cidadelas.
Valéria Áureo
13/07/2026

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Significado

 


A costura de minha mãe

Não era de linhas e tecidos,

Que se dobravam no final do dia,

Como se dobra o sol cansado diante da lua.

Era costura de palavras, pétalas, sílabas e silêncios,

Que se mostravam decifráveis aos meus atentos ouvidos.

Eram de fios dourados, embaraçados nos pensamentos

Arrematados delicadamente com mínimas pedrarias, feitas à mão,

Que ela escolhia serenamente, enquanto me ensinava a ler e sorria.

Enquanto ela bordava a chama terrena da maternidade,

Via a magnitude absoluta da estrela nas suas crias

Que davam significado à primitiva e estranha paixão.

 

Valéria Áureo

26/ 01/ 2021

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Maria Deveria


 

Imagem - Internet


Maria, a menina do rosto triste e cavo,
Deveria ter os cabelos entrançados,
Para a tristeza não escorrer por seus ombros,
Nem se espalhar para todos os lados.
Deveria prender os fios de cabelo nos grampos
– para que ficassem ocultados -
Onde jazem os medos e os escombros
Nos cachos embaraçados.
Maria deveria
Amarrar as tranças, ao acordar, enquanto risse,
Em dois laços de fita de seda armadilha,
Que pudessem enlaçar e atrelar a amargura
E afastar de vez, o peso da densa melancolia,
Para que, enfim se repartisse,
E florescesse a sua meiguice,
Em tramas de uma doce figura.
Maria deveria...


Autora: Valéria Áureo
13/08/2020
In: As Folhas Devem Cair

domingo, 2 de agosto de 2020

Posto 9


                 Cerimônia de premiação - Prêmio UFF de Literatura - 2013.Vinicius de Moraes 100 Anos


Uma chega, de coração machucado,

Outra sai feliz e iludida,

Em paz com o namorado,

E o copo de uísque na mão.

Chega de saudade!... Ela diz.

Encontro! Six o’clock!

Ela é carioca... Com sorte

Na aposta se ganha o dote

E ele vem dançar o rock
No balanço do decote.

Asdrúbal trouxe o trombone...

Silêncio! Ligaram o microfone;

Ouvi gritar o meu nome.

“Simbora” pra Joana Angélica...

Antes de a festa acabar?

Não posso. Vou pegar meu violão.

Vou fazer uma canção.

Uma vem e é só soluço, colérica:

Você não soube me amar!...

Outra vai tentar a sorte

Ser a musa da South América.

Faz samba pra pedir perdão. Briga não!

Faz samba só por ciúme. Traí não!

Vem comigo para a praia... Chora não!

Que o amor permanece intacto,

Do primeiro ao último ato.

Segura a minha mão... Vai embora não!

Faz samba, para não perder o costume.

Faz samba pra contar o crime.

Desilusão. Nas bandas de carnavais:

Bela jeunesse dorée, filtro solar da fidelidade.

O democrático, o démodé amor total. Felicidade!

Areia de Ipanema; vim ver esta cidade,

Eu vim viver, vim namorar... Nada aqui é igual.

Beijo no cinema, surfe no Arpoador...

Vim beber a solidão,

Vim beber a minha dor.

Loura, morena, estrangeira,

Oh! Baybe, não...

Eu quero mais é ser feliz!...

Audácia, Leila Diniz,

Barriga de ventre livre

E o avião para a Austrália.

Gabeira tanga crochê...

Uma vem, outra vai,

Encobrindo a genitália.

O point do apito, dos novos mitos,

Nada, nada, nada... Sussurros e gritos.

Aplauso ao pôr do sol. Stop,

Que a lua já vem e a noite cai

Na Vinicius de Moraes.

Uma chega e outra sai.

Ritual de Ipanema às seis,

Passarela da praia e suas leis.

Loura, morena, mestiça brasileira,

Aplauso, assovios e vaias,

Verão após verão, nas pernas, nas curtas saias...

Quero passar, um weekend com você!

Hoje é dia de rock, de auê.

Um ano inteiro em cartaz...

Dando verde no Ibope.

Vem comigo, para o banco de trás!

Sem tristeza não se faz um samba não;

Sem alegria não se faz um poema não.

Partirei agora, gangue noventa, de vez...

Não me diga que está com medo

Do circo voador, dos beijos meus.

O amor não é brinquedo,

Ai... Eu chego aos sessenta e seis

E ela sai dos dezessete.

Eu fico, ela canta, ela vai...

Rindo, mascando chiclete.

Para se fazer um samba e ser feliz

É preciso ter beleza. Agora diz!

É preciso da beleza e da tristeza...

Faz... Faz samba pra dizer adeus.  
                            

   Autora: Valéria Áureo

13/12/2013
Poesia 1ª colocada no
Prêmio UFF de Literatura 2013 -Vinicius de Moraes 100 Anos
Antologia de Textos premiados - Poesia- Crônica- Conto; página 21- Editora da UFF.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Almoço






Ilustração - Fonte Internet

 

No teu prato quis fazer-te poesia,

Arrumando arranjos, beijo ambrosia,

De alfaces florais, ao meio-dia; 

Eram teus cinco anos e alguns dias.

Verdes tão claros, água. Turmalinas e mais...

Algas marinhas de esperanças, pérolas alvas quando tu me sorrias.

Quis servir-te sonhos, doces de alecrim e alegrias,

Para saciar-te a fome de raras perguntas e recentes geometrias.

Com espumas brancas de mar e açúcar confeitei glacês,

Fractais desenhados na toalha branca de linho.

Quis servir-te poemas de chocolate por sobremesa ...

Água fresca da talha, tão segura quanto a certeza. 

Quebrada a casca frágil porcelana,

Do ovo restou-te precoce a bela,

A emergente caligrafia. E me escrevias...

Clara a abrangência de sintagmas e enigmas,

Como luz acesa, de teu coração cartesiano;

Óbvia a lucidez de um teorema, que só tu vias.

Fervilha  tua cabeça atenta. Desvendo planos

De um menino de sonhos, peças de máquinas e cálculos...

Dar-te beijos, nesse instante, era o meu mais tímido projeto.

O garfo farto detém a ceia. Sobre o prato o ponto final.

A gema resta intocada e luzidia, entre a clara rota.

Deste-me o riso iluminado, quente, como um arquiteto,

Ardendo em muitos raios, reflexo repartido,sol,

Do sorriso de tua pequenina boca, então contido.


Autora: Valéria Áureo
To: Hubert A.C.S.Fonseca
In: As Folhas Devem Cair

Abril de 1988

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Anúncios e Encomendas




Vestidos, saias e rendas,
Laços, corpetes, vestidos com fendas...
A costureira faz roupas de festa e arranjos:
Organzas, crepes para o baile de debutantes.
Depressa! É hoje! As mocinhas vão dançar  o fandango.

Bombons, caramelos e refrigerantes,
Enfeites, balões, bolos de chantilly e morango.
A doceira faz doces de festa:
Brigadeiros, quindins, casadinho trufado
para o aniversário das crianças.
Depressa! É hoje! Os meninos vão dançar o sapateado.

Versos, poemas e sonetos,
Rimas de palavras assonantes...
A escritora escreve por encomenda:
Odes, sonetos, haicais e lendas.
Depressa! É hoje! Vamos dançar o minueto.

Autora : Valéria Áureo

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Tímido Trovador




Da recôndita plaga, a musa enganadora me sonda.
Conto de mim, distante do rio, separado dos dois ( terra e água).
Incrustado na Zona da Mata, dos verdes pastos e dos bois...
Canoa atada no fio da aurora, em cipó de embira,
Que em minh'alma amarrou mágoas.


Sou um pombense altivo, um típico mineiro,
Agreste, plantador de palavras, capoeiro,
Cultivo no papel, a lavoura da memória que me ronda - tímido trovador -
Cercando minh’alma em fios invisíveis de arame farpado ...

Eu tenho a cabeça briosa, mas os olhos para baixo, tangendo o gado,
Voltados pra água mansa, que rola em tênues ondas.
No entorno da cidade, toda forma de poema eu encaixo...
Aproveito a escrivaninha das montanhas do sudeste 

E me faço um diplomata, um sujeito discreto que se veste,
Sem uso do terno e da gravata, envolto em idiomas...
Sem embaixada, sem itinerário, ou acadêmicas dragonas.
Escrevo... E me emociono, me canso e falo baixo...

Nisso muitas cidades invado; com esse jeito reservado...
De costelas do corpo curvado; muito pouco eu ando...
Sofro com a aflição da distância ( sensação de um espinho torto e encravado).
Escrevo o poema da vida, sob inflexível e fatal encomenda,

De viver hoje, amanhã e sabe Deus até quando...
Oculto feito granito, sou pedregulho de distanciada ribeira.
Flamboyant centenário, chegada e partida na rodoviária.
Sou palmeira, barco de papel ... Sou pequena nau mineira.

Mata... Água da cachoeira... Tarde de sol e ladeiras.
Igreja da Matriz, Largo, Cine Prolar, Baixio e goteiras.
Sombreado pela antiga mangueira - pintei o sete, o 87, na Rua Domingos Inácio.
Homem feito, um sujeito triste... Faço do livro e da vida, um breve e discreto prefácio.

Sem terno e gravata eu ouso; invento-me e me atrevo perto da clareira,
Aproveito a bancada do barranco, a retórica, a idéia e escrevo.
E me disfarço num diplomata do mato, um orgulhoso caipira,
Curioso e atento ...  Tudo do Pomba nas saudades me inspira.



Autora : Valéria Áureo

 02/09/2009

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O verbo, a verba, o verso



O verbo solto, a verba presa.
A verba barra!
O político berra,
faz birra
e se borra.
Fecha a burra, presidente!


Autora: Valéria Áureo

sábado, 19 de outubro de 2019

WORDART


Nickname: Lobo do Mar, ou Selvagem;
Tigrão, Cinquentão, Meia-idade.
Tu sonhas como seria
Ter um affaire com Maria.
Encaminhas cópia oculta
E enalteces teu pendrive:
Um Bill Gates, uma Microsoft!
Vendes mil beijos na boca
Que se fazem inocentes,
Ícones, propostas loucas,
Envidraçadas nos dentes,
Expostas no monitor.
E te ofereces, webmaster,
Fazendo upload com outras.
Na tela... No espaço... Dás enter!
Beijos entalhados no ventre
De invisível sedutor,
Embutidos nos Emails
Nos recados, nos correios
De uma loura Leonor...
Isauras, Teresas, Estelas,
Marias, Angélicas tão belas...
Tão longe, tão perto e conciso,
Resumes teu aplicativo:
Um potente hardware.
Wordart tu pões em destaque.
Copias e colas... Navegas;
E vens afoito ao ataque!
Diante do laptop, ativo...
Galante! Stop! Um hacker...
Galante e conquistador…
Emotions, documents, pecados...
Precisas deixá-los gravados
Na webcam. Meia-noite... De anseios...
No corpo, no home Page, nos seios,
Na página da negra Neide.
Delete! Mais uma ao mar!
Antes que a ingênua, incauta,
Descubra da ruiva Cleide, o avatar.
Que enciumada e triste, deixa estar...
Neide desnuda queira se matar.
Azar... Tu pensas: sobra-me a Guiomar!
Que fuja, ou te trate mal, internauta...
Ou troque o segredo, a senha,
A que melhor te convenha...
Mas não faz mal:
Neste mundo virtual
Até mesmo a Maria da Penha
Pode te consolar.
Já com a saudosa Grace,
Nem ao menos um Backspace...
No Excel dois mil e sete,
Calculas o potencial de Ivete.
No alinhamento de dados:
Uma para domingo,
Outra para sábado.
Queres levá-las com o tempo em resenha,
Arrastá-las pela Web, em aventuras.
Digitas, editas, salvas, envias e programas...
Acesso rápido. Área de transferência:
Pensas: quiçá hoje eu levo uma pra cama...
Não está Alice, mas está a Penha.
Não sendo a Rosa, talvez a Ana.
Conectado a roteador. Lento…
On line... Com sólido argumento,
Tens só um pensamento:
Realizo teus sonhos! Faço loucuras!...
Ah! Férteis mensagens, promessas,
No Skype, nas longas conversas.
Coloridas de confetes. Advertes:
Tenho mil beijos pra Beth,
Disponíveis, top secrets… Chicletes.
Para o corpo acomodar Elizetes
Nos blogs, no Facebook de Anetes.
E, tua boca cedente, ao vivo,
Em closes, by Messenger, prometes:
Segredas só para uma,
Como se só uma houvesse...
Uma paixão descabida. Um arquivo,
Um livro aberto, disseste.
Download... Sem você eu não vivo!
Mentes... À outra, à última conheces...
Insensível, à primeira argumentas:
Vê se me esquece!
Configuras, atualizas teu banco de dados,
Software, com muitas mulheres,
Mesclando funções e cores
Formatas opções de amores,
Diverte-te. Da forma que queres,
No link de tantos desejos: Lolitas,
Balzacas, mulheres insones, aflitas,
Que loucas imploram na noite:
Jamais me abandones!
Acabas falando sozinho.
“Te irritas”: Cadê a Benedita?
Por que não está a Anita?
Off line, desconectado...
Deixa ao menos um recado!
Mulheres malditas!
Acabas clicando no nada.
Na noite e de madrugada,
Na rede dos continentes...
Vagueias, persistes, insistes:
Isauras, Teresas, Estelas,
Rosas, Giseles, Helenas?
Tão belas...
Toda mulher vale a pena!
Sem saberes, ao menos onde...
E quantas, e quem são elas...
Vírus, falácias espalhas...
Mentiras, spams e banners,
Dia e noite, todo o ano;
Ah! Les femmes... @marcinhaa43
Com propósito de engano; mais uma vez.
Tramas na Rede as malhas:
Não esqueças que eu te amo!
Eu seria Maysa, Piaf, Dolores,
Uma mulher de muitas dores,
Se acreditasse em teus amores..
Basta! Some, vê se te afastas!
Apaga meu endereço!
Eu, por mim, já te esqueço!
Eu te alerto: nem és meu dono!...
Eu te pergunto: Salvar Como?
Autora: Valéria Áureo
Antologia do I Concurso de Poesias
Prêmio Amigos do Livro /Filipoços – 2010
Pag.70