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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Do Ponto Atrás ao Ponto Com...

                                                        Ilustração: Valéria A.Cerqueira


            Pelo código Morse*, por ponto e traço, o noivo mandava avisar que em breve viria para definir sua situação com a amada:
           Prepare tudo noivado Ponto. Levo alianças Ponto. Marcar data casamento Ponto. Saudades Ponto. Seu noivo Carlos Ponto.
           A moça apaixonada lia o telegrama feliz. Enfim, o noivo voltava formado da capital. Brevíssimas palavras e promessa de casamento. Ela bem preferia as longas cartas de amor... As que ela escrevia preenchendo várias e várias folhas finas com centenas de pontos a discutir. Muitos pontos a decidir antes do casamento. Muito ponto e vírgula. Três pontos, então? Quanta coisa estava suspensa, sem resposta, sem definição, sem ponto final... Dois pontos importantes: onde morar, quantos filhos... Com a sogra?... Nem pensar, dizia a noiva com indefectível ponto de exclamação!
            Era ponto de honra ter a própria casa. Ele nem sabia muito bem por que tantos pontos de interrogação na cabeça da moça, quando se tratava da mãe dele. Havia até pequenos pontos de discórdia entre as duas. Mas ele não podia compreender que pontos da mãe desagradavam a futura nora. E vice versa. Nenhuma das duas entregava os pontos...
            No ponto em que as coisas estão... Sei não, pensava a mãe da noiva sempre silenciosa, não querendo por um ponto na conversa dos dois. Na discussão, a moça era mais geniosa e levava alguns pontos de vantagem. Primeiro ponderava; se não resolvesse batia o pé e pronto. Mais um ponto a seu favor. Quantidade de filhos? O que Deus mandar! Depois danava a discorrer, ponto por ponto, o que seria a vida em comum.
         Muitos pontos duvidosos na cabeça dos dois... Principalmente na dela, enquanto bordava, embainhava, chuleava; ponto pra frente, ponto atrás... Um depois do outro. Vestido, Igreja, festa, lista de convidados... Entre um ponto e outro, muita preocupação e a cabeça a ponto de explodir. Namoro e noivado eram para isso mesmo: ver se vai dar certo, analisar ponto a ponto. Ver os pontos que combinam e os pontos que não combinam... Ponto cruz!... Que cruz é essa dúvida... Cruz credo!... E se não der certo? Ter que viver junto o resto da vida?... Valeria a pena casar, tão jovem? O que se tinha que aprender para ser uma boa mulher?... Bordados e costuras ponto a ponto; ponto atrás, ponto cruz, ponto corrente. É...  Casamento é uma corrente... Titubeava com a agulha espetando o linho e a linha se arrastando a cada ponto de reflexão. Ela ficando nervosa com a expectativa do casamento, fazendo o enxoval; estressada, a ponto de ter um chilique... E os doces da festa? O ponto do doce para cortar, ponto do caramelo, ponto da geléia. A novilha no ponto de abate pra festa. Do ponto de vista do pai estava tudo certo. Cedia o ponto do antigo consultório pro genro tocar a vida de médico. Passava o ponto e a clientela... Estava decidido.
           O ponto que mais o aborrecia nela eram os ciúmes... Mas, com o tempo ela amadurece. Chega-se a ponto de equilíbrio. Tudo questão de paciência.
          - Oh! Meu Deus... estou tão nervosa... A ponto de desistir... Suspirava aflita.
Ao menos tinha muito tempo para pensar, até porque casamento, naquele tempo, era para a vida inteira.
            No ponto de ônibus o rapaz espera impaciente a condução. A que ponto chegou o nervosismo da moça: brigar na véspera do casamento?... Quase ela põe um ponto final no noivado.
        Ah! Naquela ocasião quase tudo era poesia circunstancial!
Agora, os tempos são outros: Ponto com. (Com pressa, Com improviso, com audácia, com direito a voltar atrás e desistir).
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Pela Internet, por bytes no cyber space, o jovem arrisca e envia um convite:

      Aí maluco... Tá ligado? To vazando morar com a Jane. Bora comemorar. Kada um leva o seu. Se não der certo volto pra kasa da mãe. Valeu? Terminei fac, sem trampo ainda.
Bloqueei MSN. Jane invade meu Orkut. Mó ciúme. Troquei a senha... Deletei as amigas... E-mail novo: tocasado@.com.br Então... Já é?
Fui.


Valéria Áureo 

* O telégrafo foi o primeiro aparelho que permitiu a comunicação à distância através de fios e da eletricidade. Esse aparelho foi inventado, em 1837, pelo norte americano Samuel Morse. Em 1844, Morse transmitiu a primeira mensagem telegráfica pública e demonstrou como o telégrafo era capaz de enviar sinais rapidamente e a grandes distâncias.





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