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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Onde estão as borboletas ou A leveza da Inspiração








Bem tarde da noite, minha mãe me liga e me pergunta: onde foram parar as borboletas, minha filha? É que a cidade está coberta de flores nas acácias, quaresmas, flamboyants. Tudo aberto em primavera, mas não vi mais borboletas. Na hora senti-me responsável pelo desaparecimento delas. Teria eu aprisionado todas, como já fizera no passado?...


Formigas, moscas, borboletas e o que mais há no mundo para se ver. O que eu pudesse pegar eu colecionava com a avidez dos meus olhos e a agilidade das mãos, com pressa de quem quer crescer. Um dia aprisionei muitas borboletas em uma caixa de tela fina, querendo guardá-las e eternizar o voo e a beleza delas. Não compreendia a fragilidade da vida e desconhecia a fugacidade da existência. Só pensava em guardá-las ao montes, da mesma forma que colecionava papeis, pontas de lápis de cor, botões e tudo que despertasse brilho nos meus olhos. Com o mesmo ímpeto aprisionei borboletas, distanciando-as das flores, do ar, da liberdade e voo, para retê-las para sempre. Jamais imaginei que se perderiam; ao contrário, pensava perpetuá-las como num quadro vivo. Só fui compreender que não se pode reter a beleza, nem a juventude, quando as encontrei caídas como pétalas no fundo da caixa. Antes lagarta repulsiva e crisálida, depois o leve inseto.


Borboletas se comunicam por sons oriundos de suas asas, eu aprendi. Falam-se num tímido farfalhar inaudível, percebido recentemente por pesquisadores. Um som brisa na seda fina de suas asas coloridas. Mas era óbvio que deviam se falar. Nunca imaginei que qualquer criatura deste universo pudesse não falar... Ainda mais as borboletas, que têm tanto o que dizer sobre os campos e as flores e os voos sobre as cercanias e sobre meninas que correm para alcançá-las... Os homens se falam por palavras ou por ausência delas. Gestos, silêncios, olhos e lágrimas...


São muitas borboletas, oriundas de toda parte: Aprendi, depois de grande, sobre a nútica borboleta, vinda das longas migrações do continente americano, num bater de asas que dura três mil quilômetros. Incansável maratonista que vem do Canadá, em setembro, até as florestas de Pinheiros do México, onde chega, em novembro, exatamente no dia dos Mortos. Para os habitantes da região as borboletas representam a alma dos entes queridos, que retornam em revoada. Pois agora elas invadiram Portugal e se deixam ficar nas zonas de várzeas das ribeiras de Algarves, e sua presença já é suficiente para tornar a região mais bonita, onde se confundem o inseto e a flor. Linda forma de eternizar as pessoas que amamos, imaginar que vêm nos rever, ao menos uma vez, disfarçadas em mágicas criaturas. Alguns as concebem estrelas perdidas na dimensão infinita do céu; assim são mais distantes. Prefiro imaginá-las borboletas, mais ao alcance dos olhos e das mãos..


Tive uma caixa de borboletas amarelas, das que voavam numa tarde distante, no quintal de minha casa, sem saber do sentimento de aprisionamento e solidão. Não soube pensar nelas, só em mim. Eu era ainda menina e meninas só sonham, brincam, riem e algumas, como eu, aprisionam borboletas, observam formigas, dançam com moscas... Hoje fico mais tranqüila com minha forma de prestar atenção em tudo. Damien Hirst foi mais sábio e pintou diáfanas borboletas. Salvador Dali foi mais genial, pintou e eternizou borboletas em uma tela suave, leve que faz o coração alçar, perdido na transparência delas. Também eu desenhei tantas, e colori e imaginei pousar em muitas cores e perceber tantos perfumes. Meu pueril fascínio pelo pequeno ser não me permitiu guardá-las para sempre, como os pintores souberam fazer. Eu, infantilmente, ainda tenho aprisionadas as borboletas que peguei. Embora não possam ser apreciadas como uma valiosa tela num museu, elas me permitem voar, voar, voar...


Bem mãe, já sei... as borboletas estão livres, voando nos azuis dos seus olhos.





Valéria Áureo
Publicada em O Imparcial
                              em 30/09/2004

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